quinta-feira, 29 de novembro de 2012

vivendo entre os mortais

Uriel

Em suas andanças, Uriel alcançou as regiões quentes da Arábia, onde o sol era tão escaldante, que a população da cidade onde ele decidiu manter residência, ficava dentro de casa o dia inteiro. Portas e janelas permaneciam fechadas sem a menor fresta. Era como se todos os habitantes das casas estivessem dormindo, ou então não estivessem dentro delas, mas isso era impossível, pois o celestial conseguia sentir a presença dos humanos naquele lugar.

Além disso, a rua estreita de casas altas como pequenos prédios, onde ele morava, fora construída de tal maneira que a réstia de sol não se movia lá dentro de manhã à tardinha.

Mas tudo mudava no momento em que o sol desaparecia no horizonte.

Ele se divertia vendo aquilo. Quando sentia o ar fresco da noite, o serafim saía ao terraço, as estrelas surgiam aos poucos no maravilhoso céu noturno, ao se espreguiçar sentindo a noite, Uriel tinha uma leve noção do que era estar vivo.

As pessoas eram todas muito bonitas, seus cabelos eram negros e lisos, os olhos eram grandes, redondos e castanhos, e a pele era de mogno, os homens usavam pesadas roupas de cores claras e sóbrias as cores mais comuns eram os tons pastéis, enquanto as mulheres usavam roupas mais leves e muito coloridas, e como adorno elas se enfeitavam com muito ouro, colares, anéis, pulseiras, tudo muito reluzente. 

Nos terraços das casas haviam postes improvisados, que eram longos pedaços de madeira que ficavam em pé e presas ao topo haviam candeias acesas, em cada um dos terraços haviam pelo menos cinco destes postes improvisados, as famílias se reuniam para comer e conversar, enquanto no nível da rua, os comerciantes anunciavam seus produtos e barganhavam com os clientes o valor de cada item que vendiam. Todas as noites pareciam ser festa, havia muitas risadas, muita conversa, o soukh era vasto e farto de todo tipo de mercadoria, tudo podia ser encontrado no grande mercado, desde que você soubesse o que e onde procurar.

Bem no meio desse lugar estava Uriel, ele se destacava no meio do povo, era mais alto que os homens daquele lugar, sua pele era muito clara, os cabelos e os olhos eram mais negros do que os de qualquer homem ou mulher daquela região. Ele estava sempre vestido com uma túnica da cor da noite, e quando descia ao soukh as pessoas sempre paravam para vê-lo, todos ficavam muito curiosos, pois até o momento nunca haviam encontrado um homem de pele clara como o mármore. Quando andava pelas ruas, as pessoas corriam para as janelas e as portas, as crianças o seguiam tão d eperto quanto seus pais permitiam, as mulheres escondiam o rosto deixando escapar alguns risinhos abafados, e os homens sussurravam todo tipo de histórias sobre o homem estrangeiro.

(...)

Uriel seguia todos os costumes daquele povo fasciante, ele ia à mesquita para fazer suas orações, e participava de todos os rituais religiosos, quando recebia convites de vizinhos - que faziam um esforço enorme para passar por cima do receio e estender a mão amiga para o celestial - para comparecer a festas que as pessoas davam, ele fazia questão de ir, e quando lhe perguntavam de onde ele vinha, ele sorria e dizia sempre a mesma coisa: "De um lugar muito alto e muito longe daqui...". Uriel era sempre muito educado, e um dos seus prazeres era comer e dormir, para ele que era um serafim, essas duas ações eram um luxo do qual podia dispor tranquilamente.

Sua vida seguia em paz, os ceifeiros se ocupavam em fazer o trabalho do celestial, e ele procurava estar o mais perto possível dos humanos; aos poucos ele descobria o pazer em existir, ainda sem conhecer os sentimentos que destacavam a humanidade, o serafim aproveitava ao máximo tudo o que estava ao seu alcanse.

 

__ Trecho de "As crônicas de Uriel"

 

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